23 / 10 / 2020 - 07h00
Debate nos EUA: Trump não disse nada de novo para reverter vantagem de Biden, diz especialista

O segundo e último debate entre o presidente americano, Donald Trump, e seu rival democrata Joe Biden, ontem, em Nashville, foi mais civilizado do que a primeira confrontação entre os dois candidatos no final de setembro. Para o historiador Paul Schor, especialista em Estados Unidos na Universidade Paris Diderot, eles puderam desenvolver seus argumentos, com certa vantagem para Biden, já que Trump não acrescentar nada de novo que pudesse reverter a vantagem do democrata nas pesquisas.

A 12 dias da eleição presidencial, a pressão era maior sobre o republicano, que está 7.5 pontos percentuais atrás de Biden nas pesquisas nacionais de intenção de voto. "Não tenho certeza de que Trump conseguiu convencer outros eleitores, já que ele continuou a falar para os que votam nele", opina o historiador.

Os concorrentes à Casa Branca responderam a questões sobre a pandemia de coronavírus, as tensões raciais, mudanças climáticas e política externa. Trump chegou a elogiar o trabalho da moderadora, a jornalista Kristen Welker, correspondente da NBC News na Casa Branca, que podia desligar os microfones para evitar interrupções. Concretamente, ela utilizou esse recurso poucas vezes.

Biden voltou a fazer duras críticas a Trump por sua gestão da pandemia da Covid-19. O democrata previu um "inverno sombrio" no país, que registra mais de 220 mil mortes por causa do vírus e onde milhões de pessoas perderam seus empregos. "O responsável por tantas mortes não deve permanecer presidente dos Estados Unidos", criticou Biden.

"Estamos lutando vigorosamente" contra a pandemia, respondeu Trump, afirmando que a vacina "está a caminho" e será anunciada "provavelmente em semanas".

A promessa é eleitoreira e sem credibilidade, na avaliação do professor da Universidade Paris Diderot, além de já ter sido feita outras vezes, antes mesmo do início da campanha. "Vamos ver o que dizem os laboratórios [implicados no desenvolvimento das vacinas] que, da outra vez que Trump fez essa promessa, disseram que não iriam apressar os ensaios clínicos por causa do calendário político", recorda o historiador.

Trump subiu ao palco sem máscara em Nashville, no estado do Tennessee, três semanas depois de ser hospitalizado por causa do coronavírus. Ele falou de sua própria recuperação, mais uma vez alegando estar "imune".

"[Trump] diz que estamos aprendendo a viver com isso. As pessoas estão aprendendo a morrer com isso", respondeu Biden.

Biden declarou que existe um "racismo institucional nos Estados Unidos". Ele enfatizou a necessidade de "oferecer oportunidades" aos jovens afroamericanos, seja no mercado de trabalho ou na saúde em particular. "Sempre buscamos mais inclusão, e este é o primeiro presidente que diz chega, chega", apontando para seu oponente. Trump contestou: "Ninguém fez mais pelos afroamericanos do que eu, talvez exceto Abraham Lincoln".

No momento em que Trump atacou o projeto "socialista" de seguro-saúde dos democratas, conhecido como Obamacare, Biden aproveitou a ocasião para elucidar pontos de seu programa nessa área, fundamental para a população mais pobre. Biden afirmou ter a intenção de melhorar o Obamacare, criando uma "opção pública", ou seja, um plano público para quem estiver interessado em uma alternativa aos produtos oferecidos pelo setor privado. "Ainda estamos esperando o seu plano de saúde, assim como o seu plano para infraestruturas", ironizou Biden.

Como esperado, Trump pediu "explicações" a Biden sobre as acusações de corrupção relacionadas às atividades de seu filho Hunter Biden na China e na Ucrânia, quando o candidato democrata era vice-presidente de Barack Obama (2009-2017).

Biden refutou qualquer irregularidade: "Nunca recebi um centavo do exterior em toda a minha vida", afirmou. "Nada era antiético." E, já na ofensiva, o democrata questionou Trump sobre ter conta em um banco na China e pela não publicação de suas declarações de impostos de renda nos Estados Unidos, após o vazamento de dados fiscais que alegam que o magnata pagou somente US$ 750 em impostos federais em 2016, ano da sua eleição.

Trump respondeu ter muitas contas bancárias devidamente registradas. "Sou um empresário de negócios", disse, lembrando que a conta em questão datava de 2013 e foi encerrada em 2015, quando decidiu se candidatar à presidência dos Estados Unidos. O republicano garantiu também que pagou "milhões dólares em impostos de maneira antecipada", e que publicará suas declarações assim que terminar uma auditoria feita por seus contadores.

Trump justificou seus encontros com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, antes de ser fortemente criticado por Biden. "Tenho um relacionamento muito bom com ele", disse o republicano. "É um tipo diferente de homem, mas provavelmente pensa a mesma coisa sobre mim. Temos um relacionamento muito bom e não há guerra", comentou.

Biden reagiu argumentando que Trump legitimou a Coreia do Norte. "Ele nos fala de seu bom amigo, que é um bandido, e diz que a situação está melhorando, quando eles desenvolveram mísseis capazes de atingir o território americano com muito mais facilidade do que antes."

Outro ponto alto do debate foi a acusação de Biden de que Trump é responsável por uma política "criminosa" ao separar crianças migrantes de seus pais que haviam cruzado ilegalmente a fronteira com o México, aplicada em 2018, mas suspensa em meio a uma onda de indignação.

O plano, elaborado para conter o fluxo crescente de imigrantes sem documentos, principalmente famílias da América Central, resultou na separação de quase 2.700 crianças de seus pais. Esta semana, veio à tona que os pais de 545 dessas crianças ainda não puderam ser localizados.

Trump defendeu a política de "tolerância zero" com a imigração ilegal e alegou que crianças foram trazidas para a fronteira dos Estados Unidos por "coiotes", "cartéis" e "pessoas más". Disse ainda que foi Obama, e não ele, o responsável pela construção das jaulas onde os menores foram encarcerados.

"Serei presidente dos Estados Unidos, não vice-presidente", disse Biden, prometendo que em seus primeiros 100 dias no cargo enviará um projeto de lei ao Congresso para facilitar a cidadania de de 11 milhões de imigrantes sem documentos.

O atual presidente aparece atrás nas pesquisas nacionais, mas a vantagem de Biden tem diminuído, depois de ter alcançado dez pontos percentuais há dez dias.

Segundo uma pesquisa da Universidade Quinnipiac, Biden apresentou uma vantagem de 51-43 na Pensilvânia nesta quarta-feira (21). Trata-se de um estado que Trump venceu por pouco em 2016. Outra sondagem da mesma universidade mostrou que os dois candidatos empataram com 47% no Texas, onde Trump venceu confortavelmente há quatro anos. Desde Jimmy Carter, em 1976, nunca mais um democrata venceu no Texas.

Mais de 47 milhões de cidadãos americanos já votaram, de acordo com a organização independente US Elections Project, número que equivale a 30% dos eleitores de 2016. Na avaliação do historiador Paul Schor, "é pouco provável que o debate ainda terá efeito sobre os indecisos".

Trump votará na manhã de sábado (24) na Flórida, sua residência oficial fora da Casa Branca, informou seu porta-voz Judd Deere ontem.


FONTE : UOL