20 / 09 / 2020 - 07h01
Araújo: "Não estamos aqui para sermos uma ponte. Os outros que construam"

Na semana passada, o ministro Ernesto Araújo, do Itamaraty, declarou numa reunião do grupo "Personalidades em Foco" que o Brasil deve estar determinado a defender seus interesses, e não a "construir pontes", jargão da diplomacia sobre costurar relações entre nações. O discurso reforça o tom soberanista que deve ser adotado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua fala na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) esta semana.

"Não queremos fazer coisas que sejam importantes para a ONU ou certos organismos. Mas para o imenso processo de transformação do Brasil", disse o chanceler.

Sobre o papel do Brasil como mediador internacional e uma política externa pragmática ou neutra, ele ainda disse: "Não estamos aqui para sermos uma ponte. Os outros que construam".

"Essa ideia de que o Brasil nasceu para ser uma ponte. Eu não acho que o Brasil nasceu para ser ponte. O Brasil nasceu para ser o Brasil. Outros que construam as pontes. Não estamos aqui no mundo para construir as pontes entre os outros. Mas ser o que nós somos e decidir o que queremos", completou, em discurso efusivo.

"É preciso repensar o sistema multilateral", defendeu o chanceler, criticando uma vez mais a OMS (Organização Mundial da Saúde) e insistindo sobre a necessidade de que sejam os governos quem conduzam os processos.

"Éramos líderes conduzidos por interesses e ideias alheias", disse. "Liderança na questão ambiental era fazer tudo o que os europeus queriam."

O tom soberanista do governo brasileiro, exaltado por Araújo na reunião, tem ainda um segundo pilar: recusar-se no palco internacional a admitir a existência de problemas, passar um recado de que a democracia é plena no Brasil, que jornalistas são protegidos, que ativistas são bem-vindos e que os incêndios são ilusões.

Na OMS (Organização Mundial da Saúde), por exemplo, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou que o Brasil era um dos líderes na recuperação da doentes da covid-19, sem citar a existência de um dos maiores números de mortos do mundo no país.

Nesta semana, um relator da ONU chegou a recomendar oficialmente que o Conselho de Direitos Humanos abra um inquérito internacional contra o Brasil pela gestão durante a pandemia.

O discurso de "Brasil soberano" ainda encontra contradições ao ver-se a postura adotada pelo governo que privilegia os interesses do governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (EUA).

Nas últimas semanas, o governo brasileiro abandonou a ideia de apresentar um candidato para a direção do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) depois que a Casa Branca exigiu que um nome dela, o americano Maurício Claver-Carone, liderasse a instituição.

Ainda que não existam regras claras, sempre houve um entendimento na região de que o BID deveria sempre ser comandado por um latino-americano, o que foi a realidade desde os anos 60.

Em gestos para ajudar a reeleição de Trump, o Itamaraty ainda cedeu em importantes questões comerciais, como no setor do etanol e aço. Em todas as decisões, o governo americano prejudicou o setor privado brasileiro, com tarifas e melhor acesso aos americanos. E, apesar das perdas, o governo brasileiro não protestou.

Cenário semelhante é encontrado quando o assunto é o embargo econômico a Cuba, quando no final de 2019, pela primeira vez desde o início do bloqueio, o Brasil votou contra uma condenação do ato dos EUA. Tradicionalmente, apenas americanos e israelenses votavam contra a proposta.

Ainda assim, Araújo garante: "não há alinhamento automático com os Estados Unidos".

Questionado sobre as razões dessa mudança em Requerimento de Informação da bancada do PSOL, Ernesto Araújo afirmou que o Brasil "votou contra o texto por reprovar o uso da Assembleia Geral por parte do governo cubano".

Segundo o ministro, o governo brasileiro rejeitou uma "manobra" e o voto contrário "representou mais do que simples mudança; significou correção justa e necessária de posicionamentos anteriores equivocados que desconsideravam a opressão política do regime cubano".

Sob risco de incorrer em crime de responsabilidade, porém, Araújo não respondeu ao questionamento dos parlamentares se havia ocorrido algum tipo de comunicação com o governo dos EUA prévia à mudança de posicionamento. Todas as trocas entre o Itamaraty e a representação brasileira na ONU sobre o tema encontram-se classificadas (em sigilo).

Em 2019, em seu discurso nas Nações Unidas, Bolsonaro citou textualmente a situação de Cuba, mas poupou regimes como o da Arábia Saudita e tantas outras ditaduras. Seu discurso usou, em muitos momentos, palavras e termos similares ao líder que o seguiu no pódio: Donald Trump.

No setor de direitos humanos, o Itamaraty não defendeu o brasileiro Paulo Abrão de ataques sofridos na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, enquanto aderiu a todas as iniciativas do governo americano em temas como uma aliança antiaborto, religião, família e posturas comuns em vetar iniciativas relacionadas com educação sexual.

Outra mudança explicada por Araújo se refere à situação palestina, um ponto de tradicional apoio de diferentes governos brasileiros ao longo de décadas e que, com a aliança com os EUA, foi modificado.


FONTE : UOL