31 / 07 / 2020 - 15h38
O que Mr. Weintraub pode aprontar no Banco Mundial? Vai prender quem?

Nunca ninguém ficou tão feliz ao ser defenestrado do governo Bolsonaro como Abraham Weintraub. Ele mesmo fez questão de anunciar a boa nova num vídeo ao lado do presidente.

Também não era para menos: o seu prêmio de consolação era um cargo de diretor-executivo do Banco Mundial em Washington, com salário de R$ 100 mil por mês, fora as mordomias.

Antes que um constrangido Bolsonaro desistisse da nomeação, com o passaporte diplomático no bolso, Weintraub correu para o aeroporto e pegou o primeiro avião rumo à sinecura, bem longe dos processos que enfrentava no Supremo Tribunal Federal. Nem esperou a exoneração sair no Diário Oficial.

Deixando para trás um Ministério da Educação destroçado por olavistas e terraplanistas juramentados, sem ter apresentado qualquer plano de trabalho em 14 meses no governo, posou de exilado político e enviou selfies de Miami, em lanchonetes de fast-food, à espera da confirmação do seu nome, o que aconteceu na noite desta quinta-feira.

Abraham Weintraub no Banco Mundial, onde representará o Brasil e mais oito países no conselho da instituição, é mais ou menos como nomear o filho Eduardo Bolsonaro, o popular 03, para embaixador em Washington, como pretendia o presidente.

Com dificuldades para falar e escrever em português correto, pode-se imaginar como serão as intervenções do ex-ministro em inglês, a língua oficial no banco.

Ou ele ficará em silêncio, por não entender o que estão falando, fazendo apenas figuração, ou será mais um vexame mundial do Brasil.

Por sorte nossa, Weintraub cumprirá um mandato tampão de apenas três meses, até o dia 31 de outubro, quando será aberta nova eleição.

Mas já será suficiente para garantir uma bolada de R$ 300 mil, o que levaria um ano para ganhar no ministério. Até lá, o Brasil poderá encontrar um nome menos, digamos, exótico, do que o deste caçador de "comunistas", que odeia os povos indígenas e queria mandar o STF inteiro para a cadeia.

A cadeira que ele irá ocupar já foi de economistas e diplomatas brasileiros respeitados, como Pedro Malan, Murilo Portugal, Marcos Caramuru e Otaviano Canuto.

Em entrevista à CNN Brasil, Canuto lembrou que, para ocupar este posto, é recomendável ter características da diplomacia, boa articulação, poder de convencimento e muita gentileza na relação com seus pares e equipe. Ninguém lá ganha uma discussão no grito.

"Para isso, precisa ter respeito, consideração pelo tema, ter o reconhecimento de que pode falar por todos, na hora certa. Não é uma coisa individualizada. É preciso capacidade de influência para defender os interesses do Brasil, e isso depende de habilidade diplomática", ensina Otaviano Canuto,

Ou seja, tudo o que Weintraub nunca demonstrou na vida, muito ao contrário. A passagem dele pelo Ministério da Educação foi um tempo de permanentes conflitos com o Congresso, os reitores das universidades, professores e estudantes.

Como a aprovação da indicação feita pelos governos dos países membros do Banco Mundial é automática, certamente ninguém examinou o currículo do novo diretor-executivo, cuja breve atuação no mercado financeiro não foi lá das mais auspiciosas.

Ao saber da indicação do seu nome, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, lembrou que "ele trabalhou no Banco Votorantim, que quebrou em 2009, quando era economista chefe lá".

Weintraub garante que isso é mentira, mas até agora não apresentou ao distinto público qualquer qualificação na área econômico-financeira, muito menos na diplomática, para ocupar tão importante cargo.

Pode-se argumentar que, se ele não tinha biografia profissional para ser ministro da Educação, também não precisaria para ser diretor-executivo do Banco Mundial. Ficam elas por elas.

Se o ministro da Saúde pode ser um general, sem nenhuma experiência na área, muito menos em combate a pandemias, que levou uma tropa para colocar no lugar de médicos e acaba de nomear uma velha amiga socialite para o representar em Pernambuco, o absurdo não tem limite neste governo. Tudo é logo "normalizado".

Quem melhor resumiu o sentimento de muitos brasileiros, como eu, diante da oficialização do nome de Abraham Weintraub no Banco Mundial, foi meu colega Kennedy Alencar, aqui do UOL, que postou nas redes sociais:

"Que vergonha. Não tem qualificação para nada. É uma besta que vai entrar para a lata de lixo da História. Pena do Banco Mundial e dos brasileiros que tiveram essa figura num ministério fundamental para o futuro do país. Vai passar..."

Vida que segue.